Mar Espectral

Um assobio cortava os corredores do castelo, como sempre escuro e esquecido. Aquele assobio dominava e transpassava seu eco junto de uma…

Imagem criada e editada por Sahra Melihssa para o Castelo Drácula

Um assobio cortava os corredores do castelo, como sempre escuro e esquecido. Aquele assobio dominava e transpassava seu eco junto de uma ventania estranha que dançava pelas paredes de pedra e roçava na poeira, erguendo um cheiro de umidade e pó. Em uma das câmaras de retiro do castelo, Minerva escrevia em seu livro negro, posicionada sob uma mesa de escrever. Ela aguçou os ouvidos, atenta àquele som ritmado que ecoava cada vez mais perto.

O som deslizava pelo ar, suave e contínuo, como um sussurro levado por uma brisa forte ou o farfalhar de um tecido escorregando sobre uma superfície lisa. Era fluido, mas inconfundivelmente presente enquanto se movia, sussurrante e rápido, arrastando o pó do castelo pelos ares e emitindo notas como Dó, Mi e Sol. 

 Hummmmmm Hummmmm hummmm hummmm... 

Ela parou, pousou a pena sob a madeira da mesa cautelosamente ao direcionar o olhar atento para onde o som ecoava quando aquilo adentrou pela porta do cômodo, que se abriu de leve como se alguém a destrancasse, aquele vento soprou a vela erguida pelo candelabro ao lado de Minerva e a apagou, sob a mesa. A escuridão dominou e ela ouviu apenas o som de seu espirro após inalar o pó que aquela brisa trouxera, que exalava um aroma de terra molhada.

A esfera luminosa de Minerva brilhou no ambiente acima de sua cabeça, afugentando um pouco do breu e elevando à penumbra a marca dos objetos ao seu redor. Com cuidado, ela fechou o livro e, com um sussurro, o encantou para que ninguém mais o pudesse ler. O pó sob o chão era levado por aquela brisa fazendo círculos ao seu redor e aquele som podia ser ouvido como às vezes mais longe e às vezes bem mais perto, como se estivesse indo e vindo até ela. Aquele era um dos sinais de algo que a chamava mais uma vez para os lugares mais ermos e lúgubres que se escondiam nas reentrâncias dimensionais do castelo.

Minerva avançava pela galeria silenciosa, guiada por uma intuição que pulsava em seu coração. A brisa, cada vez mais intensa e carregada de poeira, soprava sua direção, também lhe indicando o caminho. A cada passo, seus pés ecoavam suavemente sobre o chão de pedra, e ela percebia uma mudança sutil, quase imperceptível, na atmosfera do castelo. Havia um murmúrio distante de água corrente deslizando pelas paredes e pelo chão. Ao seu lado, a esfera de luz que a acompanhava brilhava com um tom inusitado: o azul-cobalto substituíra o habitual tom de safira, como se até mesmo sua magia estivesse sob influência de algo diferente.

O vento empoeirado mudou repentinamente de direção, arrastando Minerva para uma ala do castelo que lhe era completamente estranha. A escuridão era tão densa que o teto parecia ter deixado de existir, e todos os objetos ao redor surgiam apenas como vultos distantes, como se ela caminhasse por um vazio absoluto, desprovido de tempo e espaço. Vista de longe, se alguma alma pudesse enxergar naquele abismo, ela seria apenas a silhueta de uma dama envolta em negro, recortada contra o brilho pálido de uma luz fria, um vestido longo de mangas justas a cobria como um véu de sombra, os tecidos pesados ondulando suavemente ao compasso do vento oculto, como se a própria escuridão se moldasse ao seu corpo.

 O sussurro ecoou mais uma vez, baixo e arrastado, como um segredo sendo revelado gota a gota nas paredes. À frente, Minerva vislumbrou um alto portal, duas portas monumentais, cravadas no chão e fundidas à rocha das paredes. Eram feitas de jacarandá escuro, e exalavam uma presença inquietante. Reunindo toda a força do corpo, ela empurrou as portas pesadas, que rangeram com um som áspero e profundo ao se abrirem.

Do outro lado do portal, Minerva encontrou uma paisagem emoldurada pela desolação: uma praia fria e cinzenta, açoitada por rajadas de vento cortante, sob nuvens espessas que mergulhavam o mundo em penumbra. As ondas do mar, negras e revoltas, quebravam com fúria sobre a areia pálida, como se tentassem devorar a costa. Ao erguer o olhar, ela o viu o castelo Drácula erguendo-se com imponência sobrenatural no alto de uma formação rochosa, cercado por montanhas escuras como carvão. 

As torres do castelo se projetavam contra o céu como lanças de pedra, adornadas por gárgulas de olhos ocos e asas abertas, como se estivessem à espreita. Vitrais rachados e sujos, mais parecidos com feridas do que com janelas, manchavam suas fachadas, lembrando igrejas amaldiçoadas, esquecidas pelos deuses e devoradas pelo tempo. A atmosfera era densa, elétrica, como se algo além da compreensão, habitasse aquele cenário. E Minerva sabia, ela estava numa das dimensões ocultas onde o castelo Drácula existia, um reflexo sombrio entre realidades na encosta da praia da melancolia.

Em sua mente, ela considerou aquele acontecimento por alguns segundos, tentando entender onde estava e por que o castelo a trouxera ali. Ela sentou-se na encosta da praia. Seu longo vestido negro foi consumido pela areia e seus cabelos tornaram-se esvoaçantes com as rajadas de vento. Em seu interior, se instaurava um medo vestal como se sua magia fosse se esvair, ela não tinha fé única, mas cria principalmente em sua magia. 

Por um instante fugaz, tão breve quanto o piscar de olhos, Minerva tentou racionalizar o que via. Por que o castelo a convocara para aquele limiar de mundo esquecido? Que propósito obscuro havia naquela travessia? Sem respostas, deixou-se cair sobre a encosta pedregosa da praia, onde a areia, fria e úmida como cinzas de ossos antigos, começou a engolir as dobras de seu vestido negro. O vento, cada vez mais impiedoso, fustigava-lhe os cabelos, fazendo-os dançar em espirais caóticas como serpentes presas na cabeça da medusa.

Ela afundou as mãos na areia pálida, desejando ancorar-se ao mundo físico, sentir algo que não tremesse sob o peso do abismo. Foi então que seus dedos roçaram algo rígido e frio, uma estrutura metálica soterrada sob os grãos. Puxou-a lentamente, revelando um objeto soturno: uma cruz de tungstênio escurecido, com uma safira profundamente cravada no centro. Gravadas em seu corpo metálico, inscrições arcanas serpenteavam em uma língua extinta, como se tivessem sido gravadas por mãos que já não pertenciam há nenhuma era conhecida. Era um encantamento, um aviso, talvez. Ou uma chave. 

Ofegante, os olhos de Minerva vasculharam mais uma vez as inscrições entalhadas no artefato, buscando um sentido oculto nas curvas tortuosas da escrita. Então, com um murmúrio quase imperceptível, lançou um encantamento que fez a cruz flutuar diante de si. Os símbolos arcaicos despertaram, acendendo-se com uma luz azul e girando lentamente no ar. Uma única frase reverberou, clara como uma sentença final: aquele que habita na escuridão, Lwccirtt, livre de sua prisão.

Mal as palavras cessaram, as rajadas de vento emitiram urros furiosos, e no coração do oceano caiu um raio etéreo de luz antinatural, impossível de nomear, que desceu rasgando os céus. O clarão golpeou as águas como uma lâmina divina, e o mar respondeu. Minerva tentou erguer-se, tentou fugir da costa maldita, mas o tempo já não lhe pertencia. Das profundezas abissais, ergueu-se a onda. Não uma onda comum, mas uma muralha de água e trevas, uma maré de natureza arcaica e brutal que não pertencia àquele mundo. Era como se o próprio mar, consciente e vingativo, se levantasse para apagar tudo. Ela não apenas engoliu a praia, ela perfurou, arrastando com ela a matéria que Minerva conhecia ou cria ser o mundo.

O castelo Drácula, em sua imponência amaldiçoada, foi tragado inteiro. As gárgulas se despedaçaram como bonecos de sal; os vitrais explodiram num mosaico brilhante de pontos escuros, e as colunas góticas se retorceram sob o peso de um oceano que não devia existir. A água salgada invadiu corredores e criptas, afogando histórias e horrores adormecidos naquela dimensão. Minerva, engolfada pela força inominável, foi arremessada contra as rochas submersas como uma folha sem destino e ali seu corpo flutuou, inerte, entre as sombras. E então ele surgiu. Lwccirtt.

Uma criatura feita de névoa viva e substancial, pairando sob as ruínas submersas como um presságio, dançando imerso nas águas escuras. Era amorfo, uma nebulosa sólida e escura, líquida, pulsante como tinta cósmica derramada sobre o fundo do oceano perto da zona abissal. Sua anatomia desafiava a mente: tentáculos espectrais sem origem serpenteavam em direções paradoxais, oscilando entre matéria e vazio.

Minerva submergiu sob as águas que devoraram o castelo, envolta em silêncio. Seu corpo repousava imóvel, e apenas o tangível frio das águas lhe despertava as extremidades dormentes, sabia que estava machucada, mas não conseguia sentir onde.  As sombras que avançavam no escuro levavam consigo destroços do castelo Drácula; numa quietude súbita, as correntes agitavam-se num balé funerário, como se o próprio mar reverenciasse uma queda tão grandiosa. 

Foi então que algo se formou nas profundezas e ela pôde ver e aproximar-se do que deveria ser a superfície, só que não conseguiu alcançar. Não era fera nem fantasma, mas um vulto indecifrável, a entidade Lwccirtt, uma massa de nébula quase sólida e insólita; era escura e se desenrolava sem pressa. Suas bordas não tinham consistência firme; eram como brumas antediluvianas, densas como breu, mas compostas de uma estranha luz opaca e cobalta.

 Aquilo flutuava indiferente no véu escuro aquático, com curiosidade pacífica, observando Minerva, que ainda presa entre o limiar do sono e da vida, não sentiu medo. Pelo contrário, mesmo sem respirar, ela despertou do seu transe turvo com uma curiosidade silenciosa, a falta de ar por hora não a incomodava. Era como se aquele ser tocasse sua mente sem a tocar fisicamente, e impressões e sensações fluíam diretamente em seu ser. Não havia voz, apenas um eco distante, um sussurro que animava sua consciência. Os olhos vermelhos da bruxa enxergavam, turvos, os dentes afiados daquela estrutura nebulosa que a faziam lembrar de um peixe-ogro.

 Sensações de frio e calor envolveram-na num diálogo psíquico indescritível com os vórtices luminosos que deveriam ser os olhos daquela entidade. De súbito, o inconcebível se revelou em visões fugazes. Aquele ser conversava com ela e mostrou para Minerva um turbilhão de imagens e nem todas ela compreendia. Ela viu cidades submersas antes da era dos homens, rostos antigos esculpidos na pedra que jamais poderiam ser lidos submersos em águas profundas, florestas petrificadas sob um sol que ainda não nascera. Ela enxergou desertos de cristais negros e mares de trevas luminosas, espectros de constelações mortas e astros recém-nascidos girando num balé eterno. Cada fragmento destas cenas era um pressentimento de algo maior, um lampejo de conhecimento proibido, mas tudo lhe escapava entre a visão turva do vermelho rubro de seus olhos sangrentos que ardiam pelo sal. Suas forças e sua magia estavam sendo drenadas. 

Ela apanhava vislumbres da geometria do cosmos, da quietude antes do tempo, sem conseguir nomear. Um som estranho, como um borbulhar, era ouvido por ela quando a entidade a mostrava as visões. Ela sentia que precisava adentrar em uma daquelas realidades, em seu âmago ela começou a chamar pelo castelo Drácula, pela dimensão que ela conhecia. Cada vez que ela buscava aquele vislumbre nas visões de Lwccirtt, o som do borbulhar aumentava; ela precisava respirar e não conseguia se desvencilhar daquele contato, não conseguia nadar em busca de uma superfície.

Sentia as suas energias sendo transferidas para a nebulosa lôbrega, mesmo assim ela insistia com todas as forças psíquicas em chamar a visão de seu grimório deixado lacrado na câmara de retiro entre as visões que Lwccirtt lhe mostrava. Quando seu coração despontava sem ar e seus pulmões quase sem vida, um relance do grimório surgiu e ela pode sentir a estranheza da entidade diante da imagem. 

Quando o contato terminou, Lwccirtt retornou ao mar de sombras de onde emergira. Minerva conseguira retornar, porém, quase sem magia e a cruz de tungstênio perfurava seu peito. Pairava no ar, suspensa por um último fôlego da magia que agora a deixava, ela caiu sob o chão de pedra.

Seu corpo encharcado chocou-se contra o chão, pesado e exausto, como uma ânfora vazia. A cruz de tungstênio, que antes flutuava com poder, agora atravessava-lhe o peito, cravada como um selo. A dor era real, mas mais real era a estranheza de ainda estar viva. Ela arquejou, expelindo a água salgada dos pulmões pela boca, numa ânsia entre a morte e o renascimento ela arfou em uma tosse desenfreada. Sua mente ainda oscilava, presa à visão do castelo submerso, e da criatura que havia lhe mostrado o infinito. Ela invocou a esfera luminosa que, enfraquecida, piscava emitindo um som vibrante de energia. 

Com um último esforço ela se ergueu sentando-se, segurou a cruz e a arrancou de si. O sangue misturou-se à água que escorrida de seu corpo sobre o chão, formando um reflexo escarlate. Minerva tombou outra vez, silenciosa, com os olhos abertos para o teto que não via, carregando em si um novo vazio, não de ignorância, mas de sabedoria impossível. 

O mundo ao seu redor parecia mais vasto e menor ao mesmo tempo; o tempo não corria mais linearmente. Embora não pudesse nomear o conteúdo exato das visões, sentia que partilhava de uma sabedoria antiga. E essa certeza, por si só, já transformava sua existência fazendo-a se perguntar o que ela realmente buscava. A cruz continuava ali, ao seu lado, fria e cintilante, gravada com o nome daquele que habita na escuridão. Lwccirtt.

Rapsódia da Bruxa
Minerva, uma bruxa de alma inquieta, carrega como fardo uma maldição perversa e encontra no Castelo Drácula um refúgio para sua incessante busca por conhecimento e poder. Entre vivências intensas e, por vezes, terríficas, ela confronta os espectros de seu passado enquanto desvenda os enigmas que o presente lhe impõe. A cada passo, aproxima-se de uma verdade arcana — e sente que sua maldição é a chave oculta desse segredo. Sua rapsódia é o confronto entre sua alma e o destino que lhe foi imposto, enquanto revela uma sensibilidade de essência rara, há muito tempo privada de se expressar. » Leia todos os capítulos.

Escrito por:
Júlia Trevas

Júlia Graziela Pereira Trevas é uma escritora de 29 anos, natural de Campina Grande, Paraíba. Formada em Letras - Inglês pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), também atua como professora de inglês. Sua paixão pela escrita começou ainda na pré-adolescência, quando compunha pequenos versos. Mais tarde, ao ingressar na faculdade, aprofundou-se na literatura gótica, que hoje é uma de suas principais influências criativas. Uma curiosidade interessante é que... » leia mais
16ª Edição: Soramithia - Revista Castelo Drácula
Esta obra foi publicada e registrada na 16ª Edição da Revista Castelo Drácula, datada de maio de 2025. Registrada na Câmara Brasileira do Livro, pela Editora Castelo Drácula. © Todos os direitos reservados. » Visite a Edição completa.

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O Reflexo da Bruxa

Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas…

Imagem criada e editada por Sara Melissa de Azevedo para o Castelo Drácula

Um manto de neve recobria um vilarejo de casebres simplórios, o aspecto da neve transformava as casas de madeira em pequenas silhuetas fantasmagóricas sob a luz pálida do céu nublado que anunciava uma tempestade. As chaminés, ainda soltavam fios preguiçosos de fumaça, o som das lareiras crepitantes nos interiores, denunciava a existência da vida humana. Uma montanha se erguia imponente ao fundo, parecendo guardar segredos ancestrais, com seu cume envolto em nuvens densas e pela neve. Árvores esqueléticas ladeavam o vilarejo, seus galhos despidos de folhas estendendo-se como mãos ossudas contra o horizonte gelado. Cada passo dado ali afundaria suavemente no gelo, o vento sussurrava histórias esquecidas entre os becos estreitos e desolados.

No limite acinzentado do céu, um alinhamento raro e fascinante tomava forma: os planetas, como joias brilhantes, organizavam-se em uma configuração triangular quase que perfeita. Cada ponto luminoso parecia pulsar com uma energia única, conectando-se ao próximo por linhas imaginárias que formavam um triângulo celestial. O espetáculo transcendia a imensidão do cosmos. O alinhamento triangular era místico, como um símbolo oculto desenhado no firmamento, ecoando a harmonia secreta do universo.

Caminhando sozinha pela neve, ela ergueu os olhos em busca de contemplar aquela visão quase divina. Um arrepio percorreu seu corpo ao deparar-se com a cena, mas, mesmo assim, continuou sua jornada. Cada passo afundava no silêncio gélido, enquanto tentava distinguir o que era real e o que eram projeções de sua mente fatigada.

 A longa jornada havia consumido suas forças, deixando-a vulnerável, como uma casca vazia de quem um dia já fora. Atrás dela, ficava uma vida inteira desfeita, fragmentos de memórias que dançavam como fantasmas: euforia, raiva e tristeza se misturavam em um turbilhão que a atormentava sem descanso. Ao inspirar profundamente, sentiu o ar cortante invadir seus pulmões, trazendo uma dor que a fazia se sentir viva, ainda que por um instante. Uma estranha sensação a impelia adiante, guiando seus passos entre as casas desoladas, cujas janelas revelavam visões perturbadoras – sombras imóveis e figuras mórbidas que a observavam, como se zombassem de sua presença ou aguardassem algo mais.

Minerva caminhou a passos lentos até atravessar uma encruzilhada encoberta pela neve, seu vestido estava aos trapos e seus caninos apareciam mostrando sua ansiedade. Os olhos dela buscavam um caminho enquanto ela cobria a cabeça com um lenço de cor púrpura muito escuro. Ao passar por uma árvore robusta, de grandes galhos sem folhas, avistou uma figura sinuosa vestida de negro, segurando um cajado. Aquela pessoa estava ali, recebendo o vento e a neve no rosto, como se já aguardasse sua chegada. Um olhar sombrio e perfurante foi lançado sob a jovem Minerva, olhos frios e brancos como a neve a encaram, mas ela não temeu.

Sem olhar para trás, Minerva continuou seu caminho, passando pelo ser que a observava. Mesmo em silêncio, a mensagem daqueles olhos perfurantes ecoava em sua mente como um sussurro sobrenatural: ela trilhava um caminho que ultrapassava as barreiras do tempo e do espaço, um percurso repleto de riscos. O aviso a envolveu como uma sombra persistente, mas não a deteve. Seus passos permaneciam lentos, e seu olhar voltava-se ao chão, enquanto ela mantinha o rosto parcialmente coberto pelo lenço, tentando escapar do toque cortante do vento.

Adiante, o cenário tornou-se ainda mais desolador. Toda a vegetação estava sepultada sob a neve, transformando o ambiente em um vazio branco e silencioso. Um rio congelado se estendia como uma cicatriz de gelo, guardando uma ponte de madeira antiga e desgastada que estalava com o peso do tempo. Além dela, não havia muito que fosse visível, apenas uma tempestade de neve densa que engolia o horizonte, tornando impossível saber o que a esperava do outro lado. Sem hesitar, Minerva avançou, determinada a atravessar. Cada estalo da ponte parecia um aviso, mas ela ignorava os temores. Com o coração pulsando como o único som vivo naquele mundo, avançou em direção ao desconhecido, encarando a tempestade que era a única forma de descobrir o que aguardava no outro lado, um novo destino ou o próprio fim.

Ao finalmente atravessar a ponte, o gelo ainda cobria tudo, e o céu acinzentado despejava flocos de neve pesados enquanto ela lutava para seguir, seus passos afundando no frio. A alguns metros à frente, a silhueta de um antigo castelo emergiu através da neblina. Exausta, ela imaginou que ali poderia encontrar abrigo e descanso. O castelo erguia-se contra o céu plúmbeo, suas torres recortando a paisagem como lanças de pedra negra. Os muros, envelhecidos pelo tempo, exibiam uma profusão de gárgulas e arcobotantes que se retorciam em formas grotescas. O vento sibilava entre os vitrais góticos, os fragmentos multicoloridos projetavam sombras irreais sobre os corredores vazios que ela percorreria.

Ela aproximou-se das portas colossais, que se abriram sem que precisasse tocá-las, movidas pela força de sua própria magia. Ao adentrar o castelo, o silêncio era absoluto, quebrado apenas pelo som de seus passos. O ambiente estava escuro e frio, como se há muito tempo estivesse abandonado. Ela suspirou profundamente ao remover o lenço que cobria sua cabeça e ergueu o olhar para observar as hastes das lancetas de metal que adornavam o interior do castelo. Com a mão direita, conjurou uma esfera reluzente que iluminou o local, revelando detalhes ocultos nas sombras.

Nos salões mais profundos, a umidade impregnava o ar com um cheiro de terra antiga e cera derretida. As tapeçarias desgastadas se agarravam às paredes, escadarias em espiral serpenteavam para torres que se perdiam na neblina densa, e passagens secretas escondiam-se entre contrafortes e colunatas, como se a própria arquitetura conspirasse para ocultar mistérios.

Enquanto suas memórias ecoavam em sua mente ao observar o castelo, ela percebeu que havia fugido de um castelo apenas para encontrar refúgio em outro. Explorando os corredores envoltos em penumbra, deparou-se com uma sala oval que chamou sua atenção. Uma longa janela abobadada permitia que um feixe de luz suave iluminasse o ambiente. Estantes repletas de livros antigos e empoeirados alinhavam-se ao longo das paredes curvas enquanto, no centro da sala, uma mesa exibia pergaminhos enrolados.

Ela perambulava pela sala, os olhos analisando a disposição dos móveis e se detendo nos títulos dos livros alinhados nas estantes. Os títulos chamavam a sua atenção, Os Manuscritos Enóquicos e Os Três Livros da Filosofia Oculta estavam entre eles. Para enxergar melhor, conjurou uma esfera de luz branca que flutuou acima de sua cabeça, banhando o ambiente com um brilho frio e pálido.

Folheando outros livros da estante, ela encontrou um bestiário sem nome na capa e entre páginas amareladas, deparou-se com criaturas que nunca havia visto antes, seres distintos, oriundos de dimensões além da compreensão. Ao parar numa página em particular, um nome saltou aos seus olhos: Ttyphrssett. A descrição era de uma criatura inominável, com pele pálida e elástica, marcada por rugas profundas e atravessada por um emaranhado de veias pulsantes em tons de roxo intenso. Os olhos, desprovidos de íris e retina, eram abismos opacos, poços de vazio absoluto. Da protuberância que formava sua boca, despontavam dentes afiados como lâminas agudas, enquanto seu corpo, esguio e esquelético, sustentava uma cabeça longa e curvada, grotesca em sua forma.

Ela ficou imóvel por longos segundos, os olhos fixos na ilustração ao lado da descrição. Havia algo perturbadoramente fascinante naquele ser, mas o que mais prendeu a atenção de Minerva foi uma nota que leu abaixo da imagem. De acordo com o bestiário, aquela criatura manifestava-se apenas durante um raro alinhamento de quatro planetas: Vênus, Marte, Júpiter e Saturno.

 Esse evento cósmico liberava uma energia ancestral, tão poderosa que era capaz de rasgar o tecido do cosmo, abrindo uma fenda para dimensões esquecidas. Dessa brecha insondável, banhada em sombras e ecos de magias primordiais, emergia o Ttyphrssett uma entidade que surgia dos reflexos, seu toque poderia devorar lentamente a alma de todos que tivessem a desventura de cruzar seu caminho.

Ao ler essas palavras, a memória do estranho fenômeno que havia presenciado no céu, lhe veio à mente como um presságio. Fechando o livro, devolveu-o à estante, como se pudesse, com esse gesto, trancar o conteúdo que lá estava. Decidida a afastar as imagens que invadiam sua mente, Minerva saiu da biblioteca. A pequena esfera de luz flutuante continuava a iluminá-la, projetando sombras alongadas pelas paredes do castelo enquanto ela caminhava. A escuridão ao redor parecia cada vez mais densa.

Ela subiu uma escada em espiral, por longos minutos, até se deparar com um corredor que se estendia como um túnel infindável, ladeado por portas altas e angulosas, todas idênticas em uma geometria opressiva. O silêncio ali não era natural e parecia carregado por um peso invisível, como se algo esquecido observasse das sombras. Minerva caminhava hesitante, sentindo a atmosfera ao seu redor, até que seus olhos pousaram em uma porta distinta das demais. Gravado em sua superfície desgastada, o símbolo do ouroboros que reluzia fracamente, aquilo evocou memórias fragmentadas do conhecimento de sua vida passada.

Com um gesto sutil, ela murmurou um encantamento e a fechadura cedeu sem resistência, como se a madeira e o ferro tivessem esperado por seu comando. A porta se abriu com um ranger estridente, e o espaço adentro revelou-se um quarto abandonado ao tempo. O ar ali dentro era denso, impregnado pelo cheiro de poeira. No centro do aposento, uma cama solitária jazia sob um manto de poeira. Sem se importar com a sujeira, Minerva se deitou sobre os lençóis ásperos e embolorados, e enquanto sua consciência esvaía-se no torpor do sono, sentiu, ou imaginou sentir, um murmúrio longínquo vibrando sob a estrutura do quarto.

Quando despertou, algumas horas depois, o silêncio era estático. Ainda deitada, seus olhos vagaram pelo aposento até pousarem sob um objeto à sua frente. Encostado contra a parede, diretamente oposto à cama, um grande espelho retangular erguia-se como um monólito. Suas bordas de prata, manchadas pelo tempo, contrastavam com o véu negro que ocultava o vidro concavo do reflexo. Minerva ergueu-se lentamente, seus passos ecoaram surdos no chão empoeirado enquanto se aproximava do espelho. Um frio espectral percorreu sua pele quando sua mão se estendeu para tocar o tecido denso e opaco.

Seus olhos tremeluziram quando, em um movimento rápido, ela removeu o tecido que cobria o espelho. Por alguns instantes, encarou o próprio reflexo como se o visse pela primeira vez. A superfície do espelho, embaçada pelo tempo, distorcia levemente sua imagem, mas ainda era possível discerni-la. A esfera luminosa se aproximou novamente, projetando uma penumbra entre ela e o vidro. Seu cabelo negro, desgrenhado e esvoaçante, estava preso apenas por duas mechas reunidas com um broche na parte de trás. A calça de linho escura mostrava sinais de desgaste, e as botas finas e rendadas já acumulavam sujeira e umidade da neve. O longo casaco Garrick Coat preto e acinturado, abarrotado e coberto por marcas de uso, exibia manchas acinzentadas. Ela fitou sua própria imagem e, por um instante, tudo o que viu foi a figura de um pedinte.

Após alguns instantes contemplando a própria visão, seu reflexo começou a tremeluzir em fios de luz roxa, distorcendo-se em ondas etéreas. Seus olhos, antes familiares, tornaram-se violetas, vibrando com uma luminescência antinatural. De súbito, ela deu um passo para trás, o coração disparado sem compreender o que estava acontecendo. O seu próprio reflexo tinha ganhado vida!

Então, a figura no espelho vociferou um zunido lancinante, alto como o lamento de uma banshee, rasgou o ar, obrigando-a a cobrir os ouvidos e se encurvar sob a dor. Sua imagem continuou a se contorcer, desfeita em sombras púrpuras e pulsantes, até dar lugar a algo grotesco.

Diante dela, uma figura corpulenta e esquelética emergia em distorção, seu crânio alongado desafiando qualquer lógica geométrica. Mandíbulas se abriam além dos limites normais, expondo fileiras de dentes finíssimos, como agulhas de marfim manchado, que reluziam à luz de uma fonte invisível. No lugar dos olhos, apenas poços esbranquiçados e vazios, devorando a realidade.

Os membros do ser, longos e desproporcionais, terminavam em garras multifacetadas que se dobravam e desdobravam com movimentos imprevisíveis, como se seguissem um ritmo ditado por forças além da compreensão humana. Aquilo começou a se posicionar para fora do espelho e seu deslocamento não era uma caminhada, tampouco um rastejar, mas um fluir espectral, um deslizamento silencioso negando as leis da gravidade. Minerva tentou fugir daquela visão anormal a passos rápidos em direção a porta do quarto, mas a criatura a perseguia. Ela estava desprovida de armas, tinha apenas a sua magia consigo e era com ela que contava.

Minerva corria a passos longos pelo corredor enquanto ouvia o remexer corpulento e estranho daquela criatura pelo ar, ela não estava apavorada em si, mas não queria precisar usar sua magia final como último recurso, por isso, tentou fugir da criatura para lutar contra ela à distância e, talvez, queimá-la com suas chamas ou eletrocutá-la com seus raios. As cenas de como abater aquilo passavam por sua mente enquanto ela buscava a saída do castelo. A criatura avançou rapidamente, movendo-se junto às paredes e saltando pelo corredor escuro. À frente estava um vitral e Minerva mirou os vidros desenhados com a pintura de um demônio alado cavalgando um corcel; ela iria jogar a criatura contra o vitral ou a si mesma.

Sua mente trabalhava febril, traçando possibilidades, pesando: fogo? Raios? Qual magia poderia desfazer aquela aberração que parecia tecida pela própria Hela?

A coisa se aproximava. O zunido de sua presença se confundia com os ventos uivantes que atravessavam os corredores do castelo. E então, com um estalo súbito, ela saltou, as garras se estendendo para capturá-la. Minerva girou sobre os calcanhares e lançou um raio crepitante de suas mãos, a centelha azul iluminando por um instante a abominação que avançava. O feixe a atingiu em cheio, mas a criatura apenas vacilou, a pele translúcida pulsando em padrões doentios, como se sua própria carne se contorcesse para se recompor.

O impacto do ataque empurrou Minerva alguns passos para trás, até que suas costas tocaram uma parede fria. Não havia mais para onde correr. À sua direita, uma janela alta se erguia, seus vitrais manchados por marcas acinzentadas. A criatura rugiu, e o som que emanou de sua garganta era vibrante e gutural.

Minerva não hesitou. Com um gesto rápido, ergueu as mãos e projetou uma explosão de chamas contra o chão. Então, antes que ele pudesse reagir, ela lançou-se contra a vidraça. O vidro explodiu ao seu redor, cada fragmento refletindo as chamas como facas suspensas sob o ar. E a criatura, movida pelo próprio ímpeto, seguiu-a na queda.

O frio atingiu Minerva antes mesmo de tocar o chão. O impacto foi violento, os flocos de neve cederam sob seu corpo, mas não o suficiente para amortecer sua queda. O mundo girou por um instante, levando com ele o céu escuro, as torres do castelo, a criatura retorcendo-se na queda.  A bruxa cerrou os dentes, sentindo o gosto metálico do sangue. A luta ainda não havia terminado.

Ela abriu os olhos e as suas escleras pulsavam em vermelho vivo, ressaltando o azul brilhante, cor de safiras, aquele fenômeno indicava a sua irritação. Ela ergueu-se aos poucos da neve, estava coberta pelos flocos. Ao ficar de pé, olhou para o céu e viu os planetas ainda em perfeito alinhamento triangular, então, teve a certeza de que estava em confronto com o Ttyphrssett.

O silêncio se fez presente, mostrando que algo estava errado, onde estava ele? O ataque veio sem aviso. Algo cortou o ar ao seu lado, rápido como a lâmina de uma guilhotina, e ela mal teve tempo de esquivar-se antes que garras invisíveis rasgassem seu ombro. O vento trouxe um roçar fantasmagórico. O inimigo era o próprio véu de gelo que a cercava, ele se camuflara com a neve.

A criatura atacou novamente. Desta vez, ela estava à espera do golpe. Com um giro preciso, ela usou sua magia fazendo surgir de suas mãos as garras de loba que não encontraram resistência, rasgando o invisível. Um grasnar disforme soou, e por um breve instante, luzes arroxeadas brilharam, revelando a silhueta da aberração. Minerva viu seus dentes escancarados que logo se dissiparam invisíveis. Sem hesitar, ela ergueu as mãos já naturais e liberou uma torrente de chamas. O fogo crepitou, dourado e impiedoso, iluminando o vazio onde a coisa se camuflava e mais uma vez o golpe revelou o corpo disforme, contorcendo-se em brasas e luzes púrpuras, a criatura urrou, mas não cedeu.

Minerva ergueu um escudo esférico ao seu redor, protegendo-se do monstro, ela sentia os golpes frenéticos contra o escudo invisível. Ela precisava dar um fim àquilo; seus olhos vermelhos estavam frenéticos e atentos a cada movimento. Concentrada e decidida, ela já sabia o que fazer. Sussurrou palavras, baixinho, enquanto desenhava círculos, linhas e setas ao seu redor. Os sigilos cintilavam no ar enquanto ela pronunciava as palavras cuidadosamente.

Sua voz entrecortada pelo vento gelado que uivava ao seu redor, fez as palavras escaparem de seus lábios roucamente; eram sílabas distorcidas, fragmentos de uma língua oculta. A cada símbolo que traçava no ar, o tecido da realidade tremeluzia, como se uma força invisível hesitasse em ceder às vontades da bruxa.

A criatura sentiu o que ela estava articulando, então, o escudo esférico tremeu sob impactos cada vez mais violentos. A coisa não apenas atacava, mas berrava dissonante, uma reverberação além do espaço tangível. Minerva cerrou os dentes ao se concentrar e a criatura voltou a aparecer no meio da neve, ela quebrou o encanto da camuflagem.

Os sigilos, agora incandescentes como brasas azuladas, começaram a girar em torno de seu corpo. O chão sob os pés da criatura ruiu em um abismo e seres obscuros e monstruosos surgiram, presenças cujos olhos fitavam o Ttyphrssett.

A criatura golpeou, com um frenesi desesperado, o escudo. Fissuras finíssimas serpentearam pela superfície translúcida do escudo, como rachaduras em vidro prestes a se estilhaçar. O monstro sabia que estava sendo banido, que seu domínio sobre este mundo se desfazia como névoa ao sol nascente.

Minerva ergueu os braços, as mãos envoltas em uma luz ofuscante, e gritou a última palavra de suas preces: "Eligos". O ar ao redor explodiu em um clarão sinuoso, um relâmpago de luz e trevas entrelaçadas. A criatura emitiu um grunhido estranho e seu corpo esticou-se, distorceu-se, tornando-se um vórtice esbranquiçado com tons violetas que foi sugado para dentro do abismo onde os espectros sombrios o aguardavam. Por um instante, tudo ficou imóvel quando o abismo se fechou levando a criatura.

Ela deixou escapar um suspiro sôfrego, a neve tornava a cair lentamente, dissolvendo os últimos vestígios da batalha. Minerva permanecia de pé, a respiração entrecortada, os olhos ainda brilhando com o resquício de um poder que se dissipava. O que enfrentara não era apenas uma criatura, era um fragmento de algo muito pior. Algo que, do outro lado do abismo entre os mundos, agora conhecia seu nome.

Batendo a neve dos ombros, ela ergueu o olhar para o céu, onde o alinhamento dos astros lançava um ar espectral sobre a vastidão nevada. Um arrepio percorreu sua espinha; havia algo de inquietante naquela dança cósmica, como se a própria estrutura do universo estremecesse diante de forças sidéreas. Seus olhos vermelhos voltaram ao natural e, mais tranquila, pensou no que mais ela poderia encontrar naquele lugar tão distinto. Então, retomando sua avidez, ela virou-se e caminhou retornando em direção aos portais do castelo, no limiar das dimensões.

Texto publicado na Edição 13 da Revista Castelo Drácula. Datado de fevereiro de 2025. → Ler edição completa

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