Ode ao Corvo
Ó Senhor Mistério que comigo agora estás, | levanta-te desta poltrona, amigo, | nunca, jamais, te esqueças do que digo…
Ao mestre Edgar Alan Poe
MidjourneyAI
Ó Senhor Mistério que comigo agora estás,
levanta-te desta poltrona, amigo,
nunca, jamais, te esqueças do que digo.
Oculta de minha mente meus sonhos infernais,
nunca me faças padecer na dor
de ter aqui comigo esses tormentos tais...
Olha ao fundo da taça que te ofereço,
bebe, pois este é o sangue dos imortais,
é chegada a hora de inundar a garganta
e lubrificar estas cordas vocais
para o canto do ilustre corvo de Poe...
És tu, amigo, este pássaro que choras
nos espaços dos meus umbrais
pela musa Lenora que se foi...
Conheço a tua saudade esmagadora,
já me perdi na vida de aventuras,
fui ferido pela musa da Ternura,
cantei somente uma vez e nada mais...
Olha atentamente o retrato que te incomoda,
vês nele as minhas digitais?
Pois bem! Estimado companheiro,
já amei, o teu amor, não amo mais...
Este coração que guardo no peito
foi tomado por forças tais
de um escorpião de tamanho feito
que me enlaçou de tal jeito
fazendo-me um dos seus amores mortais...
Minha alma hoje clama a força
ó ave feia e escura que aqui estás,
tu, somente tu, criatura noturna,
ouviste esse canto desabafo declarante.
Costure neste bico a tua língua delirante
para que tua voz nunca mais
ouse explanar essas fraquezas fatais...
Entreguei-me à filha de Novembro,
aquela bela cujos cachos negros
enfatizei nos meus sonhos perfeitos
deixando-me domar pelos desejos materiais...
Ó pássaro das escuras
a lucidez está a me esperar!
Adeus senhor das plumas,
espero ver-te nunca mais.
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Tu que colhes os ermos deste cemitério,
vem colher a víscera deste corpo,
louco e desvairado, carne do fracasso...
Tu que amamentas um feto menino,
derrama o teu leite num leito de flores,
vem, entrega-te ao arroio...
Tu que andas nesta noite,
vem visitar-me, estou a sete palmos,
ó ser excomungado pela lua...
Tu que choras nesta tumba,
deixa que o teu pranto invoque estes restos,
esses pútridos esquecidos pela vida...
Tu que a saudade é quem guia,
nunca me esqueças!
Busque-me algum dia...
Tu que os sonhos acompanham,
nunca te esqueças,
dos dias em que éramos um só...
Tu que levas esta carcaça depressiva,
vem dar-me o último beijo,
o abraço do adeus...
Tu que és musa de um desgraçado,
feio, morto e sepultado,
traz-me o teu colo, ó mãe querida.